Capítulo 1
EDWARD CROWLEY (1834-87), o rico herdeiro de uma raça de Quakers, era pai de um filho nascido em 30 Clarendon Square, Leamington. Warwichshire[1]. no dia 12 de Outubro[2] de 1875 e.v. entre onze e meia noite. Leo[3] estava em ascensão naquele momento, tanto quanto pode ser determinado. A família Crowley, à qual esse homem pertencia, estabeleceu-se na Inglaterra desde os tempos dos Tudor: nos dias da Rainha Elizabeth I, havia um Bispo Crowley que escrevia epigramas ao estilo de Martial. Um deles — o único que conheço — é assim:
- The bawds of the stews be all turned out: (As prostitutas dos bordéis foram todas expulsas)
- But I think they inhabit all England throughout. (Mas penso que elas habitam por toda a Inglaterra.)
(Não consigo encontrar o livro moderno que cita isso como uma nota de rodapé e não fui capaz de rastrear o volume original)
Os Crowleys são, contudo, de origem celta; o nome O'Crowley é comum no sudoeste da Irlanda, e a família bretã de De Quérouaille — que deu à Inglaterra uma Duquesa de Portsmouth — ou de Kerval é da mesma linhagem. A lenda diz que o então chefe da família veio para a Inglaterra com o Conde de Richmond e ajudou a torná-lo rei em Bosworth Field.
Edward Crowley foi educado como engenheiro, mas nunca exerceu a profissão[4]. Ele se dedicou à religião e tornou-se um seguidor de John Nelson Darby, o fundador dos "Irmãos de Plymouth". O fato revela um lógico austero; pois a seita é caracterizada pela recusa de compromisso; insiste na interpretação literal da Bíblia como as exatas palavras do Espírito Santo[5].
Ele casou (em 1874, supõe-se) com Emily Bertha Bishop, de uma família de Devon e Somerset. O pai dela havia falecido e o irmão Tom Bond Bishop tinha ido para Londres trabalhar no Serviço Civil[6]. Os pontos importantes sobre a mulher são: que seus colegas de escola a chamavam de "a menina chinesa", que ela pintava em aquarela com admirável gosto destruído pela formação acadêmica, e que seus fortes instintos naturais foram suprimidos pela religião a ponto de ela se tornar, após a morte do marido, uma fanática desmiolada do tipo mais mesquinho, astuto e desumano. No entanto, sempre havia uma luta, ela estava realmente angustiada, quase diariamente, ao se ver obrigada por sua religião a executar atos da mais disparatada atrocidade.
Seu primogênito, o mencionado acima, era notável desde o momento de sua chegada. Ele carregava em seu corpo as três marcas mais importantes de um Buda. Ele nasceu com a língua presa, e no segundo dia de sua encarnação um cirurgião cortou o frenulum linguae. Ele também tinha a membrana característica, que exigiu uma operação de fimose cerca de quinze anos mais tarde. Por último, ele tinha no centro do peito quatro cabelos enrolados da esquerda para a direita na exata forma de uma Suástica[7].
Ele foi batizado com os nomes de Edward Alexander, sendo este último o sobrenome de um velho amigo do pai, profundamente amado por ele pela santidade de sua vida — pelos padrões dos Irmãos de Plymouth, pode-se supor. Parece provável que o menino ficou profundamente impressionado por ter sido dito, numa idade (antes dos seis) em que a compreensão desponta, que Alexandre significa "protetor de homens". Ele ainda está dedicando-se apaixonadamente à tarefa, apesar do cinismo intelectual inseparável da inteligência após chegar aos quarenta.
Mas o fato extraordinário relacionado a esta cerimônia de batismo é este. Como os Irmãos de Plymouth praticam o batismo infantil por imersão, isso deve ter ocorrido nos primeiros três meses de vida dele. No entanto, ele tem uma lembrança visual perfeitamente clara da cena. Aconteceu num banheiro no primeiro andar da casa onde nasceu. Ele se lembra do formato do quarto, da disposição dos móveis, do pequeno grupo de “irmãos” que o cercavam, e da surpresa ao se ver vestido com uma longa roupa branca, sendo subitamente mergulhado e levantado da água. Ele também tem uma lembrança auditiva clara das palavras solenemente proferidas sobre ele; embora não significassem nada para ele, ficou impressionado com o tom peculiar. Não é impossível que isso lhe tenha dado uma quase inabalável antipatia por mergulhos frios e, ao mesmo tempo, uma vívida paixão pelo discurso cerimonial. Essas duas qualidades desempenharam partes altamente importantes em seu desenvolvimento.
Este batismo, a propósito, embora nunca o tenha preocupado muito, acabou sendo um perigo para a alma de outra pessoa. Quando o comportamento de sua esposa o obrigou a insistir para que ela se divorciasse dele — uma formalidade tão insignificante quanto o casamento deles — e ela enlouqueceu pouco tempo depois, um eminente masoquista chamado Coronel Gormley, R.A.M.C.[8] (monomaníaco precedentemente, então e desde), ficou à espera nos portões do asilo para se casar com ela. O problema era que ele incluía entre suas deficiências intelectuais uma devoção à superstição Católica Apostólica Romana. Ele temia a condenação se casasse com uma divorciada dipsomaníaca com demência parcial não-benigna. O pobre indivíduo perguntou a Crowley detalhes de seu batismo. Ele respondeu por escrito que tinha sido batizado "em nome da Santíssima Trindade".
Agora parecia que, se essas exatas palavras foram usadas, ele era um pagão, seu casamento nulo, Lola Zaza uma bastarda, e sua esposa uma libertina!
Crowley tentou ajudar o infeliz indivíduo; mas, infelizmente, ele se lembrava muito bem da fórmula: “Eu te batizo, Edward Alexander, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.” Então, o nobre coronel teve que pagar por uma dispensa de Roma. O próprio Crowley gastava muito dinheiro de várias formas. Mas ele nunca chegou ao ponto de desperdiçar um centavo no truque das três cartas, ou no esquema dos três Deuses.
Ele também tem uma lembrança muito clara de algumas pessoas que o cercaram nos primeiros seis anos de sua vida, os quais foram passados em Leamington e arredores, local que ele nunca mais revisitou. Em particular, havia uma senhorinha de cabelos alaranjados chamada Miss Carey que costumava trazer-lhe laranjas. Sua primeira memória de fala é o comentário dela. "Ca’ey, onange”[9]; isso, no entanto, é lembrado porque foi contado a ele mais tarde. Mas ele tem uma plena memória consciente da sala de jantar da casa, de seus móveis e quadros, com sua disposição. Lembra-se também de várias caminhadas pela região, especialmente uma por campos verdes onde um carrinho de bebê é notável. A rua principal de Leamington, e o Leam com seu açude — ele tem adorado açudes desde então —, Guy's Cliffe em Warwick, e o Castelo com seu terraço e os pavões brancos: todos estes são tão vivos como se ele os tivesse visto na semana passada. Ele não se lembra de nenhum outro cômodo da casa, exceto o seu próprio quarto, e isso só porque “voltou a si” certa noite para encontrar um fogo aceso, uma chaleira chiando, uma estranha mulher presente, uma atmosfera de preocupação e uma sensação de febre; pois ele teve um ataque de bronquite.
Ele se lembra de sua primeira preceptora, Miss Arkell, uma senhora de cabelos grisalhos com vestígios de barba em seu grande rosto achatado e um vestido preto que ele chama de bombazina[10], embora naquela época ele talvez não soubesse o que bombazina poderia ser e pensasse que o vestido fosse de alpaca ou até mesmo de uma seda forte e macia.
E ele se lembra do primeiro indício de que sua mente era de ordem lógica e científica.
As senhoras agora gentilmente pularão uma página, enquanto coloco os fatos diante de um público seleto de advogados, médicos e ministros da religião.
As Senhoritas Cowper consistiam em Irmã Susan e Irmã Emma; uma grande, rosada e seca, como um rabanete gigante; a outra, pequena, rosada e úmida, algo como a Tartaruga Fingida de Tenniel[11]. Ambas eram antigas empregadas dos Irmãos de Plymouth. Elas eram muito repulsivas para o garoto, que desde então nunca gostou de cabeça de vitela, embora parcial a pratos similares, ou foi capaz de ouvir os nomes Susan ou Emma sem repulsa.
Um dia ele disse algo à mãe que provocou dela a curiosa afirmação anatômica: "As damas não têm pernas". Pouco depois, quando as senhoritas Cowper estavam jantando com a família, ele desapareceu de sua cadeira. Deve ter havido alguma leve agitação na mesa, levando à questão do paradeiro dele. Mas, naquele momento, uma voz ainda infantil veio de debaixo da mesa: "Mamãe! Mamãe! A Irmã Susan e a Irmã Emma não são damas!"
Esta dedução era perfeitamente genuína: mas no incidente seguinte, o cínico poderia talvez encontrar a raiz de um certo humor sarcástico. A criança costumava expressar seus pontos de vista, quando o silêncio parecia ser a melhor discrição, por meio de expressões faciais. Várias pessoas foram imprudentes o suficiente para dizer-lhe para não fazer caretas, pois ele "poderia ficar preso desse jeito". Ele replicaria, com um ar de revelação após longa meditação: "Então isso explica isso".
Todas as crianças nascidas em uma família cujas condições sociais e econômicas são estáveis tendem a considerá-las como universais. Só começam a questionar se elas são adequadas ao seu ambiente original quando se deparam com fatos incompatíveis. Neste caso em particular, os incidentes mais insignificantes da vida eram necessariamente interpretados como parte de um plano pré-estabelecido, como no início de "Cândida".
A teoria subjacente da vida que prevalecia no ambiente familiar provava-se constantemente na prática. E é estranho que, menos de cinquenta anos depois, esta teoria pareça uma loucura tão fantástica a ponto de exigir um relato detalhado.
O universo foi criado por Deus em 4004 a.C. A Bíblia, versão autorizada, era literalmente verdadeira, tendo sido ditada pelo próprio Espírito Santo aos escribas incapazes até de erros de escrita. Os tradutores da Bíblia do Rei Jaime gozavam de igual imunidade. Era considerado incomum — e, portanto, de gosto duvidoso — apelar para os textos originais. Todas as outras versões eram vistas como inferiores; a Versão Revisada, em particular, mostrava sinais de heresia. John Nelson Darby, o fundador dos Irmãos de Plymouth, sendo um estudioso bíblico muito renomado, havia sido convidado a fazer parte do comitê e recusou, alegando que alguns dos outros estudiosos eram ateus.
A segunda vinda do Senhor Jesus era confiantemente esperada para ocorrer a qualquer momento[12]. Tão iminente era isso que os preparativos para um futuro distante — como assinar um contrato ou fazer um seguro de vida — poderiam ser considerados como implicando falta de fé na promessa: “Eis que venho rapidamente.”
Um incidente pateticamente trágico — alguns anos depois — ilustra a realidade dessa absurdidade. Para as pessoas educadas modernas, deve parecer impensável que uma superstição tão fantástica pudesse ser uma obsessão infernal em tempos tão recentes e em lugares tão familiares.
Numa linda manhã de verão, em Redhill, o garoto — agora com oito ou nove anos — cansou-se de brincar sozinho no jardim. Ele voltou para a casa. Esta ainda era nova para ele e sentiu-se assustado. Por alguma coincidência estranha, todos estavam fora ou no andar de cima. Mas ele saltou para a conclusão de que “o Senhor tinha vindo” e que ele havia sido “deixado para trás”. Era entendido que não havia esperança para as pessoas nesta situação. Além do Segundo Advento, era sempre possível ser salvo até o momento da morte; mas uma vez que os santos tinham sido arrebatados, o dia da graça estava definitivamente encerrado. Vários eventos e tumultos aconteceriam conforme o Apocalipse, e então viria o milênio, quando Satanás seria acorrentado por mil anos e Cristo reinaria por esse período sobre os judeus reunidos em Jerusalém. A situação destes judeus não é bem clara. Eles não foram salvos no mesmo sentido que os cristãos tinham sido, todavia, eles não foram condenados. Tem sido pensado como um cumprimento da promessa de Deus a Abraão, mas aparentemente nada tinha a ver com a “vida eterna”. No entanto, mesmo esta bem-aventurança modificada não estava aberta aos gentios que tinham rejeitado Cristo.
A criança ficou, consequentemente, muito aliviada com o reaparecimento de alguns dos ocupantes da casa, os quais ele não podia imaginar como tendo sido perdidos eternamente.
O destino dos salvos, mesmo na terra, foi descrito nas cores mais vivas. Acreditava-se que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam Deus e são chamados de acordo com o Seu propósito”. A vida terrena era vista como uma provação; este era um mundo maligno e a melhor coisa que poderia acontecer a alguém era “ir para estar com Cristo, o que é muito melhor”. Por outro lado, os não salvos iam para o lago de fogo e enxofre que arde eternamente. Edward Crowley costumava distribuir panfletos para estranhos, além de enviá-los aos milhares pelo correio; ele também pregava constantemente para grandes multidões por todo o país. Era, de fato, a única ocupação lógica para um homem humanitário que acreditava que até mesmo os mais nobres e melhores da humanidade estavam condenados ao castigo eterno.
Um panfleto — um grande favorito, por ser considerado particularmente impactante — foi intitulado “Últimas Palavras da Pobre Ana”; o aspecto central de suas palavras parece ter sido “Perdida, perdida, perdida!” Ela fora empregada na casa de Edward Crowley, o mais velho, e seu delírio agonizante causou uma profunda impressão no filho da família.
Por sinal, Edward Crowley possuía o talento, assim como Higgins, o professor em "Pygmalion" de Bernard Shaw, de identificar imediatamente, pelo modo de falar de uma pessoa, de qual parte do país ela vinha. Seu passatempo era fazer caminhadas por toda a Inglaterra, evangelizando em todas as cidades e vilas por onde passava. Provavelmente ele se envolveria em conversas com estranhos, diagnosticaria e prescreveria para suas doenças espirituais, adicionaria seus contatos aos seus cadernos de endereços e manteria correspondência e enviaria literatura religiosa por anos. Naquela época, a religião era muito popular na Inglaterra, e poucos se ofendiam com suas ministrações. Sua viúva continuou enviando panfletos, etc., por anos após sua morte.
Como pregador, Edward Crowley era magnificamente eloquente, falando com o coração. Mas, sendo um cavalheiro, ele não podia ser um verdadeiro revivalista, o que implica em manipular a histeria psicológica das massas.
- ↑ Observou-se uma estranha coincidência que um pequeno condado tenha dado à Inglaterra os seus dois maiores poetas - pois não se deve esquecer Shakespeare (1550-1610).
- ↑ Presumivelmente, esta é a compensação da natureza pelo horror que atingiu a humanidade naquela data em 1492.
- ↑ N.T. Signo de Leão
- ↑ Seu filho suscitou esse fato questionando; curioso, considerando as datas.
- ↑ Pela força de um texto do próprio livro: a lógica é, portanto, de uma ordem peculiar.
- ↑ N.T. Função Pública de Sua Majestade
- ↑ Há também um notável tufo de cabelo sobre a testa, similar ao montículo carnal lá situado nas lendas Budistas. E numerosas marcas menores.
- ↑ N.T. Royal Army Medicai Corps. Corpo especializado do Exército Britânico que presta serviços médicos
- ↑ Ele nunca foi capaz de pronunciar “R” corretamente—como um Chinês!
- ↑ N.T.: Bombazina, ou bombasina, é um tecido originalmente feito de seda ou seda e lã, e agora também feito de algodão e lã ou apenas de lã.
- ↑ N,T,: A Tartaruga Falsa é uma personagem do romance de fantasia Alice 's Adventures in Wonderland, de Lewis Carroll
- ↑ Muito se destacou das duas aparições de "Jesus" após a Ascensão. Na primeira, a Estêvão, Ele estava de pé; na segunda, a Paulo, sentado, à direita de Deus. Por conseguinte, na primeira ocasião, Ele ainda estava pronto para voltar imediatamente; na segunda, havia decidido deixar as coisas seguirem seu curso até o amargo fim, conforme descrito no Apocalipse. Ninguém achava nada engraçado, blasfemo ou mesmo inútil nesta doutrina!